quinta-feira, 19 de junho de 2008

Poesia da Semana


Poesia da Semana
09/06 a 13/06/2008

BUCÓLICA

A vida é feita de nadas:
De grandes searas paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;

De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais;

De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.

Miguel Torga

Poesia da Semana

Poesia da Semana
02/06 a 06/006/2008

CARMIM

era para ver um relâmpago
que abri a página era
para fazer fogo que
escrevi amor.

Andréa Catrópa (Brasil)

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Poesia da Semana




Poesia da Semana
26/05 a 30/05/2008



MIMETISMO

Sou mais um caule na floresta densa.
Um tronco de preguiça vertical.
Inerte, muda e anónima presença,
Perdida no silêncio vegetal.

Não ondula uma folha, um pensamento.
A sombra é o véu do templo interrompido.
E o coração que bate, e a seiva em movimento,
Dão apenas à vida um resplendor fingido.

Miguel Torga

Poesia da Semana


Poesia da Semana
19/05 a 23/05/2008



PERCORRO DO TEU CORPO OS TEMPLOS TODOS

Percorro do teu corpo os templos todos
As colunas os áticos as fontes

Como se de romagem fosse a Roma

David Mourão-Ferreira

Poesia da Semana


Poema da Semana
12/05 a 16/05



VIAJAR! Perder países!
Ser outro constantemente,
Por a alma não ter raízes
De viver de ver somente!

Não pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A ausência de ter um fim,
E a ânsia de o conseguir!

Viajar assim é viagem.
Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem
O resto é só terra e céu.

Fernando Pessoa

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Poesia da Semana


Poesia da Semana
(05/05 a 09/05/2008)


SEMENTES

Olhos,
vale tê-los,
se, de quando em quando,
somos cegos
e o que vemos
não é o que olhamos
mas o que o olhar semeia no mais denso escuro.

Vida
vale vivê-la
se, de quando em quando,
morremos
e o que vivemos
não é o que a Vida nos dá
nem o que dela colhemos
mas o que semeamos em pleno deserto.

Mia Couto,

Maputo, 2004

Poesia da Semana



Poesia da semana
(28/04 a 02/05/2008)

AS GAIVOTAS

As gaivotas. Vão e vêm. Entram
Pela pupila.
Devagar, também os barcos entram.
Por fim o mar.
Não tardará a fadiga da alma.
De tanto olhar, tanto
Olhar.

Eugénio de Andrade

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Poesia da Semana

Poesia da Semana
(21/04 a 25/04/2008)

MÁQUINA DO MUNDO

O Universo é feito essencialmente de coisa
[nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma.
O resto, é a matéria.

Daí que este arrepio,
este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.

António Gedeão

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Poesia da Semana

Poesia da Semana
(14/04 a 18/04/2008)


AS AMORAS

O meu país sabe às amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.

Eugénio de Andrade

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Poesia da Semana


Poesia da semana
07/04 a 11/04/2008


Mar,
Metade da minha alma é feita de maresia.


Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 1 de abril de 2008

Semana da Leitura

Fotos da Semana da Leitura













segunda-feira, 10 de março de 2008

Poesia da Semana

Poesia da semana
(10/03 a 14/03/2008)



ACUSAM-ME DE MÁGOA E DESALENTO

Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.

Entretanto, deixai que não me cale:
Até que o mundo fenda , a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.

A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a sua dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.

Carlos de Oliveira

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Poesia da Semana


Poesia da semana
(18/02/08 a 22/02/08)


LOUVADO SEJA O GÉNIO DA NOITE

Lenta declina a luz e a noite vai
Entrando azul no tardo entardecer.
Vaga e intérmina uma folha cai;
Subtil suspira um deus nesse descer.

De uma névoa lilás a lua sai
E quebra-se no mar sem se mover.
Sons e cores, vibrações, tudo se esvai
Num lânguido desejo de morrer.

Castidade da noite absoluta,
Num galho imaterial um silfo escuta
O segredo das flores que estão sonhando.

Êxtase. A eternidade passa perto.
Gotejam astros. O mundo está deserto.
Só eu existo, fantástica…esperando…

Natália Correia

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Poesia da Semana

Poesia da Semana
(11/02/ a 15/02/2008)


Noite de Verão

Quando é no Verão das noites claras
e faz calor dentro da gente,
… aquela menina casadoira,
que mora junto ao largo,
vem à varanda ver a Lua.

Roçando o corpo, devagar,
descem por ela as mãos da noite:
sente-se nua.
Sente-se nua, na varanda,
já tão senhora do seu destino,
sem medo às estrelas e às mãos da noite
__mas baixa os olhos se algum homem passa…

Manuel da Fonseca

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Poesia da Semana

Poesia da Semana
(04/02 a 08/02/2008)

!
Experimenta falar pela minha boca, assoar-te pelo meu nariz…

Alexandre O’ Neill

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Poesia da Semana (21/01 a 25/01/2008)

Poesia da Semana
(21/01 a 25/01/2008)


OLHOS NEGROS

Por teus olhos negros, negros,
Trago eu negro o coração,
De tanto pedir-lhe amores…
E eles a dizer que não.

E mais não quero outros olhos,
Negros, negros como são;
Que os azuis dão muita esp’rança
Mas fiar-me eu neles, não.

Só negros, negros, os quero:
Que em lhes chegando a paixão,
Se um dia disserem sim…
Nunca mais dizem que não.

Almeida Garrett (1799-1854)

Pintura: Georges Rouault (1871-1958)

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Boas Leituras


Sugestão da Semana:


A Lua de Joana

O livro que até hoje li e gostei mais foi A Lua de Joana, de Maria Teresa Maia Gonzalez.
Gostei muito deste livro porque fala dos problemas da adolescência, em particular do grande problema, que é a droga. A história fala de uma rapariga que sente um grande desgosto pelo facto de a sua melhor amiga ter morrido, precisamente por causa da droga, e ela escreve no diário os seus desabafos. No fim, ela acaba por se “meter no mesmo caminho” e o pior acontece…

Joana Cordeiro







Poesia da Semana (14/01 a 18/01/2008)

(14/01 a 18/01/2008)


LARANJA, PESO, POTÊNCIA

Laranja, peso, potência.
Que se finca, se apoia, delicadeza, fria abundância.
A matéria pensa. As madeiras
incham, dão luz. Apuram tão leve açúcar,
tal golpe na língua. Espaço lunado onde a laranja
recebe soberania.
E por anéis de carne artesiana o ouro sobe à cabeça.
A ferida que a gente é: de mundo
e invenção. Laranja
assombrosamente. Doce demência, arrancada à
monstruosa
inocência da terra.

Herberto Helder